Alta Moda
VESTOJ | Uma conversa sobre a vida após a Vogue com Lucinda Chambers
5.7.17![]() |
| foto: lucinda chambers por matt writtle |
Na última segunda-feira, Lucinda Chambers, ex-Diretora de Moda da Vogue Britânica, concedeu uma entrevista ao site Vestoj. Em questão de horas, a entrevista foi tirada do ar. O motivo? Chambers detalha tudo: sua demissão surpresa pelo recém nomeado Redator Chefe Edward Enninful, a política de tratamento especial da Vogue para com patrocinadores (que todo mundo sempre soube) e o quão desanimadoras e agressivas as publicações de moda são atualmente.
Entrevistada por Anja Aronowsky Cronberg, Redatora Chefe e fundadora do Vestoj, um site cujo intuito é ser uma "plataforma para pensamento crítico da moda", como seu próprio slogan diz, Chambers toca em assuntos controversos do universo fashionista, que na maioria das vezes são enterrados em cláusulas de não-divulgação, sem poupar esforços para citar nomes e desabafar sobre sua carreira.
Mesmo excluída, excertos da entrevista circularam por toda internet de segunda para cá, afinal estamos em 2017. A entrevista foi repostada no site da Vestoj hoje [7/07], acompanhada de um disclaimer. Vocês podem ler a entrevista completa e traduzida logo abaixo:
Conseguirei um Ingresso?
Uma conversa sobre a vida após a Vogue com Lucinda Chambers
Por Anja Aronowsky Cronberg
"NOTA DO EDITOR: Devido à natureza sensível deste artigo, nós tomamos a decisão de temporariamente removê-lo do site. O que você lerá abaixo, de qualquer jeito, é o artigo original em sua totalidade".
NOS ENCONTRAMOS EM um confortável clube em West London, o tipo de encontro popular com profissionais da moda que acreditam no semblante da boemia. Por trinte e seis anos ela trabalhou na Vogue Britânica, vinte e cinco desses como diretora de moda da revista, mas não muito antes de nos encontrarmos, a imprensa fashionista estava cheia de cabeçalhos anunciando sua saída. Pedimos lattes e eu estou impressionada com a sinceridade dela.
Um mês e meio atrás eu fui demitida da Vogue. Eles levaram três minutos para fazer isso. Ninguém no prédio sabia o que iria acontecer. O gerente e o editor com quem trabalhei por vinte e cinco anos não tinham ideia. Nem o setor de RH. Até o presidente me disse que ele não sabia o que estava acontecendo. Ninguém sabia, exceto o homem que fez isso – o novo Redator Chefe*. Depois eu fui até o editor. 'Ah, Lucinda! Como você está?'. Eu contei para ele que tinha acabado de ser demitida. Ele disse, 'Ultrajante! Ridículo! Loucura!'. Telefonei para minha advogada; ela me perguntou o que eu gostaria de fazer sobre isso. Eu disse para ela que queria escrever uma carta para meus colegas para contá-los que Edward [Enninful] decidiu me mandar embora. E dizer o quão orgulhosa estava de ter trabalhado na Vogue por todo aquele tempo, para agradecê-los por terem sido colegas tão brilhantes. Minha advogada disse, 'Claro, mas não conte para o RH'. Eles não iriam querer que eu mandasse a carta.
Mais tarde, eu estava almoçando com uma velha amiga que tinha acabado de ser demitida da Sotheby’s. Ela me disse, 'Lucinda, pode por favor parar de falar para as pessoas que você foi demitida?'. Perguntei para ela o porquê – não é nada para se ter vergonha. Ela me disse, 'Se você continuar falando nisso, então isso se torna a história. A história deveria ser que você teve a carreira mais incrível possível durante trinta anos. A história não deveria ser que você foi demitida. Não suje a história'. Mas eu não quero ser essa pessoa. Eu não quero ser a pessoa que posa de valente e diz para todo mundo, “Ah, eu decidi deixar a empresa”, quando todo mundo sabe que na verdade eu fui demitida. Já existe muita neblina na indústria num todo. E de qualquer maneira, eu não saí. Eu fui demitida.
A moda pode te mastigar e te cuspir. Eu trabalher com um estilista brilhante quando estava na Marni – Paulo Melim Andersson. Eu adorava ele. Ele era desafiador, mas altamente inteligente. Frágil, como muitas pessoas criativas. Tivemos nossos altos e baixos, mas ele continuou conosco por sete anos. E então a Chloé veio. O CEO na época pediu um conselho sobre Paulo e eu disse, 'Paulo é ótimo, mas você precisa saber que ele não vai revirar a marca pra você em uma temporada ou duas. Você precisar dar tempo à ele e cerca-lo com as pessoas corretas'. 'Claro, claro', ele disse, 'Vou fazer isso'. Três temporadas depois, Paulo saiu. Não deram tempo a ele e ele nunca esteve com as pessoas certas. Eu me senti muito mal por Paulo. Se você quer bons resultados , você precisa apoiar as pessoas. Você não obtém o melhor das pessoas fazendo elas se sentirem nervosas ou inseguras. Ultimamente, o jeito de tratar as pessoas é apenas sobre controle. Se você fizer alguém se sentir nervoso, você o possui. Mas, no meu ponto de vista, você o possui do jeito errado. Você o possui num estado de ansiedade. Estou pensando em um redator de moda em particular: é o modus operandi dele. Ele vai te passar a perna e te passar a perna e deixar todo mundo tipo, 'Merda, merda, merda, merda, merda'.
Você não tem permissão para falhar na moda – especialmente nessa era de mídias sociais, onde tudo é sobre levar uma incrível vida de sucesso. Ninguém hoje em dia tem permissão para falhar, em vez disso a perspectiva causa ansiedade e terror. Mas por que não podemos celebrar o fracasso? Afinal, isso nos ajuda a crescer e desenvolver. Eu não tenho vergonha do que aconteceu comigo. Se minha sessões foram realmente uma merda... Ah, eu sei que elas não foram todas boas – algumas foram uma merda. A capa de Junho com a Alexa Chung numa camisa Michael Kors ridícula é uma merda. Ele é um grande patrocinador então eu sabia por que eu tinha que fazer isso. Eu sabia que era péssimo quando eu estava fazendo, e eu fiz do mesmo jeito. Tudo bem, que seja. Mas houveram outras… Houveram outras que foram ótimas.
Na moda as pessoas vão levar em consideração a sua apreciação de si mesmo – é apenas um fato. Você pode entra entrar uma sala se sentindo elevado e confiante, se você irradiar isso a indústria vai acreditar no seu projeto. Se, por outro lado, você parecer vulnerável você não será visto como um vencedor. Eu me lembro de um tempo atrás, quando eu estava de licença maternidade, a Vogue contratou uma nova editora de moda. Quando eu me encontrei com minha redatora depois de ter meu bebê, ela me contou sobre ela. Ela disse, 'Ah, Lucinda, eu contratei alguém e ela parece fantástica. Ela estava vestindo um vestido de veludo vermelho e um par de botas Wellington na entrevista'. Isso foi há vinte anos. Ela continuou, 'Ela nunca dirigiu uma sessão antes. Mas ela é absolutamente linda e muito confiante. Simplesmente me apaixonei pelo que ela aparentou'. E eu disse, 'Ok, ok. Vamos dar uma chance à ela'. Ela era uma estilista terrível. Apenas terrível. Mas na moda você pode ir longe se você aparenta fantástica e confiante – ninguém quer ser aquele que vai dizer '... mas eles são uma merda'. Honestamente, Anja, você pode ir muito longe só com isso. O mundo da moda é cheio de gente ansiosa. Ninguém quer ser o esquecido.
A moda se move se move como um cardume de peixes; é cíclico e reacionário. Ninguém pode continuar relevante a vida toda – você sempre tem picos e continuidades. O problema é que as pessoas são gananciosas. Eles pensam, 'Funcionou antes, temos que fazer isso funcionar agora'. Mas a moda é uma alquimia: é a pessoa certa na empresa certa na hora certa. Criatividade é realmente uma coisa difícil de quantificar e subordinar. A ascensão do high-street colocou novas expectativas em grandes companhias como LVMH. Homens de negócios querem que seus criadores se comportem de maneira comercial; todo mundo quer mais e mais, mais rápido e mais rápido. Grandes empresas demandam muito mais de seus designers – nós vimos os desastres. É realmente muito difícil. Esses designers vão ter problemas com bebida, vão ter problemas com drogas. Vão ter ataques nervosos. É muito pedir para um designer fazer oito ou, em alguns casos, dezesseis coleções por ano. Eles fazem isso, mas fazem mal – e então eles estão fora. Eles falham de um jeito muito público. Como você conquista a confiança de dizer 'Eu vou voltar e fazer de novo?'.
A empresa mais autentica na qual trabalhei foi a Marni. Nós não tínhamos/fazíamos patrocínio e o que mostrávamos na passarela nós sempre produzíamos. Nós nunca quisemos estar 'na moda'. Se você compra uma saia vinte anos atrás, você ainda pode usar hoje em dia. Nós nunca mudávamos os caminhos. Nossos shows eram sobre empoderar mulheres. Sempre tratamos nossas modelos belamente e tínhamos uma diversidade incrível na empresa: meu time era metade meninos, metade meninas, todos de nacionalidades diferentes. Era muito transparente, mas então a empresa foi vendida e tudo mudou. Os Castiglioni eram ingênuos. Eles venderam sessenta por cento da empresa, pensando que o novo dono iria respeitar o que eles construíram. Eu nunca entendi por que eles venderam justamente para Renzo Rosso entre tantas pessoas. Ele é a antítese de tudo que a Marni defendia. A antítese. Quando Consuelo saiu, eu me lembro de pensar 'Por quê não dar o trabalho de designer para alguém do time?'. Teria sido reflexo de como a moda é criada hoje em dia, e funcionou para a Gucci - Alessandro Michele esteve na marca desde sempre antes de se tornar diretor criativo. Eu falei com Renzo e ele concordou, mas de último minuto ele mudou de ideia. Eu trouxe Francesco Risso, que não tinha nada a ver com a empresa. Antes da Marni, ele vestiu celebridades na Prada. Ele nunca tinha feito um show, ele jamais coordenaria uma equipe. Mas ele conhece Anna Wintour. E à quem Renzo Rosso está sujeito? Anna Wintour. A ultima coleção de vestuário feminino da Marni foi um desastre; teve péssimas críticas. O desfile foi terrível. Eu soube que o custo de produção foi duas vezes e meio a mais do que costumávamos gastar, e vendeu cinquenta por cento menos. Um monte de compradores americanos nem se deram o trabalho de aparecer. Marni não é mais. Isso me entristece, mas eu me lembro que das cinzas algo novo pode surgir.
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| foto: wwd |
Desfiles são totalmente sobre expectativa e ansiedade. Estamos todos expostos. É teatro. Eu tenho eu tenho cinquenta e sete anos e eu sei que quando os desfiles se aproximam em Setembro eu vou me sentir vulnerável. Conseguirei um ingresso? Onde eu vou sentar? Eu não precisei pensar nessas coisas por vinte e cinco anos. A maioria das pessoas que deixam a Vogue terminam pensando que são menores, e a verdade é que você nunca é maior do que a empresa na qual trabalha. Mas eu tenho uma ideia legal agora, e se der certo eu não vou estar me sentindo tão vulnerável afinal. Temos todos que esperar para ver.
Existem pouquíssimas revistas de moda que fazem você se sentir empoderada. A maioria te deixa completamente levada pela ansiedade, por não ter o tipo certo de jantar, por a mesa do jeito certo ou encontrar as pessoas corretas. Verdade seja dita, eu não leio a Vogue há anos. Talvez eu estava tão próxima disso depois de trabalhar lá por tanto tempo, mas eu nunca levei um estilo de vida "Vogue". As roupas são irrelevantes para a maioria das pessoas - ridiculamente caras. O que as revistas querem hoje em dia é mais novo, o exclusivo. É uma vergonha as revistas terem perdido a autoridade que um dia elas possuíram. Elas pararam de ser úteis. Na moda sempre estamos tentando fazer as pessoas comprarem coisas que elas não precisam. Nós não precisamos de mais bolsas, saias ou sapatos. Então persuadimos, ameaçamos ou encorajamos pessoas a continuarem comprando. Eu sei que revistas superficiais não foram feitas para serem inspiradoras, mas por que não ser tanto úteis quanto inspiradoras? Esse é o tipo de revista de moda que eu gostaria de ver.
Lucinda Chambers trabalhou como diretora de moda da Vogue Britânica por 25 anos
Anja Aronowsky Cronberg é redatora chefe e fundadora do Vestoj
Lucinda Chambers trabalhou como diretora de moda da Vogue Britânica por 25 anos
Anja Aronowsky Cronberg é redatora chefe e fundadora do Vestoj
*Atualização - 10/07: O artigo recebeu uma alteração na última sexta (7), com a seguinte nota: "Conforme a publicação original deste artigo, fomos contatados pelos advogados da Condé Nast Limited e da Edward Enninful OBE e foi solicitada uma alteração na entrevista. Essa solicitação foi agora concedida". A mudança mencionada ocorreu nesse parágrafo, cuja passagem "Um mês e meio atrás eu fui demitida da Vogue. [...] Ninguém sabia, exceto o homem que fez isso – o novo Redator Chefe" foi considerada difamatória pelos advogados da Condé Nast. Ainda não se sabe se haverá ação legal contra Chambers.
Tradução e adaptação: Juliana Machado



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